Começou a gostar do Packers ao jogar Tecmo Super Bowl, no SNES, em 95. Logo depois, viu Green Bay ser campeão no Super Bowl XXXI e, desde então, é um cabeça-de-queijo.

O dia é 4 de janeiro de 1997. Jogo de divisional round dos playoffs. No vestiário dos visitantes do Lambeau Field, George Seifert estava sozinho. Pensativo.

Seus jogadores já tinham deixado o local. Todos foram para o ônibus, digerindo a derrota por 35 a 14 para o Green Bay Packers. Era mais uma temporada encerrada perto do Super Bowl. Seifert ficou no vestiário com uma questão na sua cabeça: é o fim.

Voltemos para o presente.

Mesmo hoje, ele lembra muito bem daquele dia. “A única que vez que me senti arrasado, como técnico”, disse Seifert. Apesar de inevitável, o fim não era esperado. Seifert tinha um currículo impecável.

Ele levou o 49ers para dois títulos de Super Bowl, em 8 temporadas. Venceu, pelo menos, 10 jogos por ano. Seu índice de vitórias de 76,6%, era maior que o do seu antecessor, e Hall da Fama, Bill Walsh. Além de ser novo: tinha 56 anos.

George Seifert, técnico do 49ers, em 1996. (Photo: PAUL SAKUMA,/AP)
George Seifert (Foto: PAUL SAKUMA,/AP)

Nada disso teve importância naquele vestiário vazio. Duas décadas atrás, uma era chegava ao fim em San Francisco. Após aquele jogo, Seifert, antes de qualquer pessoa, já sabia o que iria acontecer. “Ficou aquela sensação que, em dois Super Bowls, nós deveríamos ter ido e não conseguimos. Ou, eu não consegui. Então, a corda ficou mais apertada no meu pescoço”, disse Seifert.

Com o seu contrato terminando em 1997, o 49ers decidiu por não negociar uma extensão do mesmo. Então, Seifert decidiu se aposentar. Existe uma “dança” entre os técnicos e executivos, por toda a NFL. Longevidade é algo incomum nessa liga. Até os melhores técnicos se encontram na corda bamba.

“Eu não sei se começou com o John Madden, ou o Bill Walsh, mas sempre existiu um acordo de 10 anos. Você precisa ser bem sucedido durante este período. Alguns, mas não muitos, conseguiram ir além.”, destaca Seifert.

Duas décadas depois do reinado de Seifert acabar em San Francisco, Mike McCarthy está na sua 11ª temporada à frente do Packers. Ele estabeleceu o recorde da franquia em aparições nos playoffs, levando o Green Bay por 7 vezes consecutivas.

Algo sem precedentes, mesmo para a cidade conhecida como Titletown (Cidade do Título). Existe uma rua com o seu nome, em Green Bay. Contudo, esses não foram anos de glórias. Só que foram muito bons.

“Playoffs são um detalhe em Green Bay.”
– Bill Cowher, ex-técnico do Pittsburgh Steelers

Claro que na NFL, possuir anéis de Super Bowl é o que mede o nível de sucesso. McCarthy venceu um com o Packers, em uma gloriosa caminhada ao título, depois de se classificar aos playoffs com a 6ª posição da NFC. Seria o começo de uma dinastia.

Só que aí, perderam para o Giants e sofreram um colapso total contra o Seahawks. Essas derrotas deixaram os fãs inquietos. Irritados. Nas redes sociais é comum vermos campanhas pedindo a demissão de Mike McCarthy.

A última vez que o Packers teve um índice de vitória abaixo dos 50% e com Aaron Rodgers saudável, como agora, foi em 2008. Coincidentemente, o primeiro ano do camisa #12 na NFL.

Nos últimos 21 jogos, o Packers tem um recorde de 9-12.

O cargo de McCarhy está à salvo? Os especialistas não conseguem enxergar o general manager, Ted Thompson, demitindo seu head coach. Porém, a história nos mostra uma dura realidade.

Eventualmente, ótimos técnicos são demitidos.

“Existe muita impaciência. É por isso que você deve ter um bom domínio de si. Porque, quando as coisas não estão dando certo, como agora em Green Bay, existe muita pressão”, afirma Dan Reeves, ex-técnico na NFL.

A carreira de Reeves nos serve como exemplo. Em 23 temporadas, ele esteve em quatro Super Bowls. Ele é um dos seis técnicos que levaram dois times até a grande final.

Independente disso, quando perguntado sobre a dificuldade de manter o sucesso na NFL, Reeves escolhe destacar seu lado menos chamativo: “Você está falando com um técnico que foi demitido três vezes”.

A sua passagem mais bem sucedida foi no Denver Broncos. Em 12 temporadas, Reeves teve um aproveitamento de 53,8% e liderou o time para três vice-campeonatos. Na sua 10ª temporada, o Broncos terminou com 5-11. Duas temporadas depois, ele foi demitido depois de uma campanha com 8-8.

“As vezes, eu acho que você é menos valorizado na cidade que está, do que pelas pessoas de fora. Na cidade em que está, nada menos que um campeonato, não é um ano bem sucedido”, conclui Cowher.

Muitos dos melhores técnicos da NFL, tiveram seus melhores momentos em um intervalo de 10 anos.

Don Shula, vencedor de dois Super Bowls com o Miami Dolphins, conquistou seus anéis em suas 3ª e 4ª temporadas na liga. Três dos quatro títulos de Bill Belichick com o Patriots, vieram nos seus primeiros 5 anos.

Chuck Noll treinou o Steelers por 23 anos e conquistou seus quatro Super Bowls, em 11 temporadas. Joe Gibbs foi técnico do Redskins por 16 anos e foi campeão por três vezes, em 11 temporadas.

Muitos treinadores têm uma trajetória bem similar com a de Mike McCarthy.

Marty Schottenheimer, mentor de McCarthy, teve um aproveitamento de 63,4% com o Kansas City Chiefs, mas foi demitido após uma campanha de 7-9 na sua 10ª temporada. Sua única ida a uma final de conferência, aconteceu na 5ª temporada à frente do time.

Brian Billick teve um aproveitamento de 55,6% e ganhou um Super Bowl com o Baltimore Ravens, mas foi demitido após uma campanha de 5-11 na sua 9ª temporada. Seu título veio na sua 2ª temporada.

Mike Shanahan substituiu Reeves, e teve um aproveitamento de 61,6% no Broncos, mas foi demitido na sua 14ª temporada, depois de três campanhas ruins: 9-7, 7-9 e 8-8. Conquistou dois títulos na 5ª e 6ª temporadas.

Mike Holmgren, na sua segunda passagem por Seattle, teve um aproveitamento de 53,8%, mas foi demitido na sua 10ª temporada, depois de uma campanha 4-12. Teve uma aparição no Super Bowl, na sua 7ª temporada.

Mike Ditka teve um aproveitamento de 63,1% e foi campeão com o Chicago Bears. Porém, foi demitido depois de uma campanha de 5-11 na sua 11ª temporada. Conquistou o Super Bowl na sua 4ª temporada.

Mike McCarthy tem um aproveitamento de 64,2% no Packers. Foi campeão do Super Bowl XLV, na sua 5ª temporada. Hoje, no seu 11º ano à frente do time, Green Bay tem uma campanha de 4-5.

“Vamos nos ater aos fatos: eu sou um técnico altamente bem sucedido.”
– Mike McCarthy

Como muitos antes dele, o maior sucesso da carreira de McCarthy veio dentro da janela de 10 anos.

“A ideia dos 10 anos é uma coisa que você não quer acreditar. Por que não? Isso te põe uma data de validade. Depois de passar por isso e olhando de fora, agora, não digo que é algo absoluto. Porém, é um observação pertinente”, conclui Billick.

“Mike McCarthy não ficaria 10 minutos sem trabalho, se fosse demitido. Isso não é sobre a qualidade de um técnico, ou quão bom ele é”, complementa Billick.

Não, isso é sobre aprender com a história.

Brian Billick (Foto: Paul Connors/AP)
Brian Billick (Foto: Paul Connors/AP)

Hoje, Billick é analista na NFL Network e sempre é perguntado o porquê de nunca ter voltado a treinar. Sua resposta remete ao jogo entre Eagles e Cardinals em 23 de setembro de 2012.

Depois daquele jogo, ele viu a fadiga estampada no rosto de Andy Reid, então técnico do Eagles. Reid estava no começo da sua 12ª e última temporada com o time, e sabia disso.

Era exatamente por causa dessa sensação que Billick não voltou a treinar um time na NFL. Depois de olhar para Reid, Billick direcionou seu olhar para Ken Whisenhunt, técnico do Cardinals.

“Eles tinham vencido um grande jogo e, quando eu vi o rosto do Ken, falei: ‘é por isso que eu não treino mais’. Porque, entre a ‘grande vitória’ e caminhar até o vestiário, eu garanto que ele já estava pensando no próximo jogo e dizendo: ‘Quer saber? Eu não sou tão bom como esse time realmente é'”, conta Billick.

“Então, quando você não pode aproveitar as vitórias por mais tempo do que caminhar do campo até o vestiário, isso começa a te desgastar”, completa Billick.

O Cardinals começou a temporada de 2012 com 4-0. Terminaram com 5-11. Reid e Whisenhunt, dois treinadores vencedores de Super Bowl, foram demitidos ao final daquela temporada.

Billick reconheceu o momento de estresse emocional dos dois técnicos. Esse trabalho acaba com sua vida e te consome demais, ele disse.

“Existe um sugador no técnico, mas, ao mesmo tempo, isso é um motivador.”
– George Seifert

Walsh deixou o San Francisco 49ers, após 10 temporadas e do título no Super Bowl XXIII, citando que os técnicos têm um limite de 10 anos para manter a sua mensagem.

Cowher aponta que a free agency mudou isso, nos dias de hoje. Existem muitas mudanças nos elencos, especialmente, para um time jovem com o do Packers, para um técnico manter a sua mensagem nova.

Os desafios evoluem mais e mais, conforme um técnico permanece por mais tempo em um time. No começo, eles precisam estabelecer sua credibilidade. Depois, começar a vender sua filosofia.

Quando assumiu o Steelers, substituindo o Hall da Fama, Chuck Noll, Cowher exigiu que os jogadores aceitassem sua forma de abordagem. Depois de quatro temporadas, o time representou a AFC no Super Bowl XXX.

Três temporadas depois, o Steelers teve uma campanha de 7-9 e não foi aos playoffs. Na temporada seguinte, 6-10.

“Uma vez que você tenha se estabelecido, eu acho que o maior desafio é lutar contra o seu ego. Considero esse o maior desafio para um técnico, não pensar que vamos ter que aparecer porque vencemos, e vamos vencer de novo. Não é sempre assim. Às vezes, você precisar fazer ajustes, outras vezes fazer mudanças”, completa Cowher.

Um técnico não alcança isso em 10 anos, ao menos que vença. Porém, o sucesso pode trazer maus hábitos.

Ganhar cria confiança. A natureza humana a transforma em arrogância. Depois de um tempo, ela pode se tornar egocentrismo. Esse último te leva à teimosia.

A teimosia é a barreira que impede vários técnicos de manter seus programas por mais de 10 anos.

Ao estudar Green Bay, Cowher viu urgência. Analisando todos os jogadores lesionados, ele apontou para a criatividade de McCarthy, ao colocar Ty Montgomery como running back.

Foi fácil para McCarthy, pegar seu terceiro recebedor e transformá-lo em seu #1 running back, aponta Cowher. Nas últimas semanas, ele tem usado mais formações spread, feito mais mudanças no personnel e usado um sistema diferente.

“Eu o acho cheio de recursos. Existem muitas mudanças acontecendo em Green Bay agora. Isso, às vezes, é a base para um título que está por vir. A temporada tem tantas viradas e a forma como você passa por todos esses desafios, podem criar a oportunidade para trazer o time mais próximo e elevá-lo a um nível mais alto”, comenta Cowher.

Por outro lado, isso também pode acabar com um time.

A janela de 10 anos tem poucas exceções. Somente seis Super Bowls foram vencidos por um técnico empregado em um time por mais de uma década. Só dois foram vencidos por um técnico, com mais de 12 anos em uma franquia.

Cowher é uma das exceções. Ele voltou com o Steelers à um Super Bowl, uma década depois da sua primeira aparição. Assim, tornou-se o único técnico a vencer seu primeiro campeonato depois de 10 anos no cargo.

Bill Cowher (Foto: Paul Sancya/AP)
Bill Cowher (Foto: Paul Sancya/AP)

Depois de 12 anos em Pittsburgh, Cowher dava sinais que seria mais uma vítima da janela de 10 anos. Sua equipe estava em declínio, Terminou com uma campanha de 6-10, em 2003, e não se classificou aos playoffs pela quarta vez, em 6 anos. “9 de 10 equipes, o teriam demitido”, afirma Billick.

Então, Cowher teve sorte.

Um novato chamado Ben Roethlisberger, foi selecionado pelo Steelers no draft de 2004. Na temporada de calouro do Big Ben, o time teve uma campanha de 15-1 e perdeu para o Patriots na final da AFC. Steelers foi campeão, no ano seguinte.

Cowher não contesta a importância de Big Ben. O quarterback revitalizou a franquia. Porém, é preciso mais do que um jogador para se recuperar de um 6-10, afirma Cowher. O técnico conta que criou uma forte cultura para superar uma temporada ruim. Ninguém estava feliz com o 6-10 e entendia que isso era inaceitável.

Ele vê a mesma determinação no Packers de McCarthy.

“Mike traz a sua emoção consigo. Você vê isso nas suas coletivas. Eu adoro. Ele parece comigo. Ele é um cara da Pensilvânia. Ele não está feliz por não estarem vencendo. Acredite em mim. Eu vejo isso nele”, conclui Cowher.

É uma tarefa difícil, avaliar de quem é a culpa para esse momento do Packers.

Rodgers não tem sido o mesmo quarterback, desde a sua temporada de MVP em 2014. As lesões só castigam ainda mais um elenco cheio de buracos. Ao redor do camisa #12, Thompson montou um time com problemas.

“Eles não são um time dominante. Eles são bons jogadores, mas não são dominantes. E ele continua a mantê-los vivos (na liga). Então, eu acho que isso é um sinal de um ótimo técnico”, afirma Seifert.

A situação de McCarthy não é única. Outros técnicos também estão lutando contra a janela de 10 anos.

Sean Payton foi contratado no mesmo ano que McCarthy. Não leva o Saints aos playoffs, desde 2013. Também está com uma campanha de 4-5 nesta temporada.

Mike Tomlin foi contratado um ano depois de McCarthy. Entrou essa temporada com a expectativa de levar o Steelers ao Super Bowl. Também está com uma campanha de 4-5.

A longevidade de cada um não é por acaso. McCarthy, Payton e Tomlin estão entre os melhores técnicos da liga. Porém, estão em um momento de declínio.

“É desgastante e pesado para um técnico. Às vezes, é fácil para um treinador criar uma nova mensagem e reconstruir a cultura de um lugar, porque você não está lutando contra aquele rótulo: ‘Ah, sim, ele atingiu a marca dos 10 anos. O que isso significa?'”, diz Billick.

Normalmente, significa o término. Separação. O fim.

Raros são os times que mantêm o mesmo técnico por 10 anos. Mais raro ainda, é o treinador que sustenta seu sucesso por mais de uma década.

Billick acha que em Green Bay é diferente. Ele vê a franquia com a mesma paciência que há em Pittsburgh, uma franquia que teve três técnicos em 47 anos.

“Eu acho que Green Bay é única nesse sentido. Minha aposta é que eles são espertos o suficiente e não demitiram o McCarthy por causa da estrutura. Para mim, seria um erro fazer uma mudança, mas Green Bay sempre mostrou ser único nesse sentido”, atesta Billick.

“Toda vez que você deixa um cara como esse (McCarthy) ir, é como qualquer quarterback. Bons técnicos, são difíceis de encontrar”, conclui Billick.

Fonte: Packers News