Apaixonado por esportes, história e números, principalmente quando misturados com a magia e tradição de um dos principais times da NFL. Abordagens sobre o cotidiano do Green Bay Packers, assim como suas curiosidades e estatísticas. #GoPackGo

Quinta, 23 de abril de 2005. Há um pouco mais de 12 anos o Green Bay Packers faria a sua mais importante escolha da história recente: a seleção de seu novo quaterback, Aaron Rodgers. O promissor prospecto de Cal, nascido em Chico, por capricho de uma série de fatores não foi selecionado pelo então esperado San Francisco 49ers (o que vibramos até hoje) e acabou fazendo sua brilhante carreira na tradicional franquia de Wisconsin. Vivemos a época de mais um NFL Draft e vale fazermos uma retrospectiva de como Rodgers e Packers cruzaram seus caminhos, aumentando a expectativa das próximas escolhas do time para a temporada 2017/18. O texto a seguir é uma tradução da matéria feita por Rob Demovsky da ESPN norte-americana, em que são contados os bastidores da primeira noite de escolhas do NFL Draft 2005.

Rodrgers e outros prospectos antes do draft começar. Fonte: NFL.com

“Não é tão legal quando você é o último na sala verde”
Aaron Rodgers sobre a noite de seu draft

Quarta, 22 de abril de 2015. Aaron Rodgers conversava com alguns prospectos sobre as expectativas para o Draft. Dentre os temas, ele sugeriu uma aposta com os demais para simular quem seria o último a sair do salão verde do Javits Convention Center, em Nova York. Acabou que Rodgers foi o último a ser escolhido.

À época, os dois principais prospectos para quaterbacks eram Alex Smith e Aaron Rodgers. Os 49ers eram donos da primeira escolha e todos as análises apontavam ser este o destino de Rodgers, mas houve mudanças de planos de última hora e de número 1, Rodgers caiu para número 24. Mas sem esse caminho, talvez ele não conseguisse ser campeão do Super Bowl, 2 vezes o MVP da temporada e um dos principais nomes da liga por anos seguidos.

A grande decisão de San Francisco

Era líquido e certo que San Francisco iria escolher um quaterback. Mike Nolan acabara de ser contratado e o time vinha de uma campanha 2-14, utilizando dois quaterbacks que pouco produziram: Tim Rattay e Ken Dorsey. A esperança de uma nova era para o time era apostar todas as fichas em um calouro talentoso escolhido no Draft. Aaron Rodgers, aos seus 21 anos, era quem preenchia essas características no momento.

Mike McCarthy era o coordenador ofensivo de San Francisco na época. Segundo seus relatos, quando viu Rodgers nos treinamentos ele era o melhor quaterback que já tinha visto jogar. Ver seus movimentos in loco dava uma dimensão que nenhum vídeo de Rodgers teria dado. E estas qualidades em muito se deviam ao trabalho do técnico de Cal, Jeff Tedford, que soube estimular e apurar a capacidade de leitura de jogo de Rodgers e sua mecânica de passe, algo que só com um bom técnico e uma boa estrutura de treino poderiam oferecer.

O técnico de quaterbacks do 49ers à época também partilhava da mesma ideia, embora ressaltasse que em um momento como aquele de decidir sobre o futuro do time e apostar em algo que mesmo se tendo a noção de que é bom ainda é pouco para assegurar o futuro, escolhas erradas podem acontecer. Hoje, refletindo sobre 2005, se chega a conclusão de que se devia ter sido mais “ousado” e garantido um futuro completamente diferente à todos aqueles que estavam envolvidos.

A mídia reforçava que o destino de Rodgers já estava traçado e complementava-se a isso a questão de ele ter sido torcedor dos 49ers na infância e de realmente querer jogar lá, principalmente quando via o cenário que estava formado. Colegas e pessoas próximas de Rodgers na época confirmavam a ansiedade pela concretização da escolha e como todo este movimento sinalizava a Rodgers que ele, mesmo jovem, era diferenciado dos demais. E esta diferença em muito passava pelo seu comprometimento e competividade. Aaron sempre buscou ser o melhor em tudo o que se propusesse a fazer. Pode-se dizer que ele estava no caminho certo. Bem, este ponto de como Rodgers reagia aos comentários elogiosos que lia e ouvia motivou percepções de que estava se tornando arrogante. Pessoas próximas diziam que ele se afirmava o melhor da classe de quaterbacks, a imprensa propagava e isso se tornou uma arma contra o destino de Rodgers no Draft Day,
principalmente quando comparado a Alex Smith. No frigir dos ovos, esta arma seria poderosíssima e foi o que motivou que o NFL Draft 2005 tomasse outra proporção.

A queda e a espera

O Draft Day chegou. Rodgers tinha a sensação de que poderia não ser a primeira escolha e de fato não foi, dando lugar a Alex Smith. Porém, ele não esperava que pudesse despencar tanto no ranking…Jovem, talentoso e promissor, o que tinha Rodgers que pudesse apagar essas características? O mito de se achar superior. Antes do Draft, Rodgers teve um tempo para interagir e trocar experiências com John Gruden, na época técnico do Tampa Bay Buccaners e hoje comentarista da ESPN norte-americana. Apesar de sua excelência, Gruden ficou com a mesma impressão sobre Rodgers tal qual propagada na imprensa e também quando teve sua chance de escolhê-lo, não o fez, capturando o Running Back Cadillac Williams.

Rodgers ficava cada vez mais angustiado e lembrava dos momentos que se passavam no dia: “você sabe que o mundo inteiro está te assistindo, o seu telefone toca ininterruptamente, mas nunca é um dirigente de um time do outro lado da linha, e sim, alguém zombando de sua ansiedade e apreensão”. A mãe de Aaron, Darla Rodgers, lembra o quão difícil era, mas apesar de tudo ele conseguiu se manter como um gentleman frente às câmeras, que o filmavam a cada escolha. Segundo Aaron, o sentimento de que não seria escolhido aumentava a cada minuto. Quando passou da 16ª escolha, os Texans, ele tinha uma última expectativa de ser pego entre as escolhas 17 e 23. Mas isso também não se concretizou.

Naquela noite, o QG de Green Bay assistia o evento e via que também não estava tendo a sorte que queria nas escolhas. Os planos iniciais de escolhas estavam sendo aniquilados por mudanças de postura dos outros times, forçando a todo o momento a mudança de estratégia. Andrew Brandt, vice-presidente de finanças do time na época, listava algumas escolhas que o Packers gostaria de fazer e não pôde, como o Running Back Cadillac Williams (escolhido pelos Buccanners) e o Inside LineBacker Derrick Johnson (escolhido pelos Chiefs).

Ted Thompson estava atento e de certa forma surpreso. Em suas palavras: “buscava entender o motivo de estarem fazendo isso com ele e, principalmente a transmissão oficial esquecer do evento e focar em suas reações a cada segundo. Eu tive simpatia por ele e mais ansiedade pela nossa situação e sobre o nosso desejo que pegá-lo. Estávamos ficando cada vez mais próximos”. E de fato, ironicamente seria o encontro de dois atores em noites que estavam fugindo do controle. Para nós, que bom que tudo isso aconteceu.

Packers…it’s your turn! You’re on the clock!!

Na manhã do Draft as especulações sobre a queda de Rodgers já estavam dentre os temas discutidos pelo time e como isso poderia afetar suas decisões mais tarde. Porém em nenhum cenário se previa uma queda tão grande. Ted Thompson ressalta que nos últimos 10 dias antes do Draft começou a olhar os vídeos de Rodgers com mais atenção e pensar em outras possibilidades para a 24ª escolha, caso um quaterback estivesse disponível e se este quaterback fosse ele. Bob Harlan, presidente do Packers confidenciou que Ted Thompson passou a considerar esta saída na manhã do Draft Day, já antevendo uma queda de Rodgers no ranking de escolhas. À época, esta não era uma preocupação do time, uma vez que Brett Favre vinha desempenhando um bom papel na liderança do time. Porém, uma frase dita por Harlan na conversa com Thompson fez com que Green Bay fosse “ousado” e decidido em sua primeira escolha, tendo um prospecto como o de Aaron Rodgers disponível:

Ted, este é o seu time. Faça aquilo que tens que fazer. Faça suas escolhas conforme seu pensamento. Isto é o que importa ao Green Bay Packers.”

Diante disso, Ted Thompson, segundo relato de Harlan, encerrou a reunião dizendo: “Eu vou para escolher Aaron Rodgers!”.

Com a decisão tomada, Ted seguiu ao Draft e acompanhou os acontecimentos. Em paralelo, Ted colocava o seu ponto de vista dentre todos os envolvidos nas escolhas do time. Alguns entendiam mais facilmente, como uma aposta no futuro, uma oportunidade de recrutar um jogador útil para as próximas gerações do Packers. Outros, preferiam que as apostas fossem centradas nas necessidades da época do time, como a defesa, por exemplo. Mas, mesmo assim, não haveria volta. Se Aaron estivesse disponível, Ted o pegaria e foi o que aconteceu.

15 minutos antes de anunciar a escolha, Ted refletiu isoladamente pela última vez e fez uma ligação ao agente de Aaron, Mike Sullivan. Por ironia do destino,  Andrew Brandt, que estava no comando da ligação, ao terminar de discar o número de Sullivan, foi atendido por Aaron Rodgers.

Brandt: Mike!?
Rodgers: Não, é o Aaron.
Brandt: Aaron, é o Andrew Brandt do Green Bay Packers. Posso falar com o Mike Sullivan?
Sullivan: Vocês vão pegar o Aaron? Vocês vão pegá-lo?

Ted Thompson pedia para que nada fosse dito, que apenas fosse segurada a linha para que a escolha fosse anunciada posteriormente. Aquela noite unia em um casamento que deu certo Green Bay Packers e Aaron Rodgers.

Aaron Rodgers sendo apresentado por Ted Thomspon. Fonte:Packers.com

“Eu penso que posso crescer muito aqui! Agora entendo o motivo de ter dito no dia do Draft de que aquela noite seria a mais importante da minha carreira. Uma experiência surreal que eu precisava passar”

No ano seguinte, Mike McCarthy era contratado como novo técnico e uma parceira estava formada. Curioso: o encontro de um dos caras que deixou de acreditar em Aaron se tornou um dos que mais incentivou e desfrutou do talento que ele guardava. O Green Bay Packers de fato entrava em uma nova era e viu um substituto a altura de Favre e uma nova lenda surgir. Rodgers ganhou um Super Bowl, sempre está no topo das estatísticas da liga e no debate pelo MVP, ano após ano. É difícil imaginar o que teria sido de Green Bay sem Aaron atualmente, mas hoje, é possível tirar apenas uma lição de tudo isso: aproveitar as oportunidades sempre que aparecerem é a chave para se ter sucesso em tudo. Thompson praticou em 2005 o que sempre prega nos seus anos de Green Bay: pegar o melhor jogador disponível sempre, independentemente da posição. Green Bay aproveitou oportunidades, draftou o melhor jogador disponivel e teve o sucesso que outros 23 rivais poderiam ter tido. Esperamos que neste e nos próximos drafts algo similar possa acontecer. Inspirem-se sempre nessa história, managers!! Apenas, inspirem-se!!

Mini documentário sobre o dia de draft de Aaron Rodgers.