Edmar acompanha o Packers desde o século passado e é interessado por tudo que envolve essa franquia quase centenária. Fã assumido de Ted Thompson, tenta provar que não é apenas mais um lover…

A mais nova perda sofrida por Green Bay no mercado causou grande apreensão na “Packernation”. No domingo, T.J. Lang se juntou ao grupo que (no momento) inclui Julius Peppers, J.C. Tretter e Micah Hyde, e deixará os Packers para jogar no rival Detroit Lions. Os valores de contrato ainda são incertos, mas estipula-se que ele tenha assinado um acordo de 3 anos com 19 milhões de dólares garantidos e um valor total que pode chegar até 28,5 milhões de dólares.

A perda de Lang significa muito para a linha ofensiva e para o ataque, tanto em termos de qualidade quanto de presença de vestiário uma vez que Lang sempre foi um profissional exemplar em Green Bay. Desde 2011 Lang jogou 91 dos 96 jogos possíveis e tem um histórico perfeito de 11 aparições em 11 jogos possíveis nos Playofss, todos esses como titular. Lang também esteve no time campeão de 2010, entrando em diversas oportunidades para substituir o guard Daryn Colledge e também o offensive tackle Chad Clifton.

Mas quanta falta fará T.J. Lang ao time? A grande comparação feita pelos torcedores é com o ano de 2005. Logo em seu primeiro ano como General Manager dos Packers, Ted Thompson não teve papas na língua ao não renovar os contratos dos guards Mike Whale e Marco Rivera em pleno auge de suas carreiras. Rivera tinha sido eleito ao seu segundo Pro-Bowl e Whale teria sua única eleição no ano seguinte pelos Panthers. Oque para muitos foi um erro e para outros foi apenas um ajuste de “salary cap”, para alguns foi a oportunidade de ouro de uma guinada brusca no estilo de jogo do nosso ataque. Primeiramente vamos contextualizar, pois em 12 anos a NFL mudou muito (muito mesmo) e alguns dos números a seguir são prova disso.

No longínquo ano de 2004 a NFL era muito mais balanceada que hoje, antes da “tuck rule” do “CBA”, do rigor em marcações de “pass interference” e de tantas outras mudanças de regras que favoreceram o jogo aéreo, os times corriam mais com a bola e tentavam muito menos passes que hoje em dia. Naquela temporada o time de Mike Sherman foi o 5° melhor ataque da liga, somando uma média de 278,1 jardas passadas, 119,3 jardas corridas e 26,5 pontos por jogo. Tudo isso terminou tragicamente em uma derrota para o rival Minnesota Vikings em pleno Lambeau Field, duas semanas após uma vitória contra o mesmo Vikings (no que seria a segunda vitória dos Packers contra os Vikings naquele ano) jogando fora de casa.

A partir do ano seguinte, Ted Thompson assumiu, cortou vários jogadores e começou a remontar o time que viria a bater na porta de um Super Bowl dois anos depois. Os números assustam, o time ganhou apenas 4 jogos e perdeu 12 na temporada 2005 e em 2006, no primeiro ano de Mike McCarthy como Head Coach “ficou no zero a zero” com 8 vitórias e 8 derrotas. Mas o que impressiona são os números da grande estrela do time durante aquela trajetória.

Estatísticas de Brett Favre entre 2004 e 2007
Ano 2004 2005 2006 2007
Tentativas de Passe 540 607 613 535
TD/INT 30/17 20/29 18/18 28/15
Rating 92,4 70,9 72,7 95,7
Sacks 12 24 21 15
Colocação em Sacks 40° 20° 27° 32°
Fumbles 4 10 7 9

 

O que podemos observar logo de cara é o expressivo aumento de tentativas de passe que Brett Favre teve de 2004 para 2005 e consequentemente em 2006. Com uma linha ofensiva renovada e consequentemente um ataque corrido decadente, Favre se viu obrigado a colocar o jogo em suas mãos mais frequentemente. Para comparação, em relação a tentativas de passe Favre saiu do 4° lugar em 2004 para o 1° nos dois anos seguintes à saída dos guards titulares, o ataque corrido que era o 10° melhor da NFL (119,3 jardas por jogo) caiu para 30° (84,5 jardas por jogo) e 23° (103,9 jardas por jogo) nos anos que seguiram. O ataque que produzia 26,5 pontos por jogo passou a produzir 18,6 e 18,8 pontos. O quarterback rating de Favre caiu 20 pontos em média e suas interceptações subiram assustadoramente em 2005.

Sim o resultado foi catastrófico. Mas obviamente que tudo isso não pode ser colocado nas costas de Whale e Rivera sozinhos, afinal eles não foram os únicos cortados ou a não terem seus contratos renovados naquele ano, uma vez que a necessidade de recuperar espaço no salary cap era primordial. Mas nós podemos relacionar duas coisas diretamente com a saída dos dois guards titulares, a quantidade de sacks sofridos por Favre e a queda no jogo corrido durante os dois anos seguintes.

E aqui começa a grande questão, com a saída de Josh Sitton no ano passado e T.J. Lang nesse final de semana podemos esperar os mesmos resultados? Vamos observar os mesmos dados de Aaron Rodgers no biênio de 2015-2016 para comparar. O ano de 2015 foi o último ano de Sitton e Lang lado a lado na linha ofensiva, e assim podemos imaginar como a saída de Lang deve afetar o nosso ataque nesse ano.

                                              Estatísticas de Aaron Rodgers em 2015 e 2016
Ano 2015 2016
Tentativas de Passe 572 610
TD/INT 31/8 40/7
Rating 92,7 104,2
Sacks 46 35
Colocação em Sacks 12°
Fumbles 4 8

 

Como podemos ver, a saída de Sitton teve os mesmos impactos das saídas de Whale e Rivera mais de uma década atrás. Rodgers também teve o jogo mais em suas mãos e teve um aumento de 6% em suas tentativas de passe, ao passo que o ataque corrido que era o 12° melhor da NFL com 115,6 jardas por jogo em 2015 caiu para a 20° com 96,8 jardas por jogo no ano seguinte. A grande diferença está na quantidade de sacks sofridos. Enquanto Favre teve seu jogo diretamente afetado, Rodgers aparentemente não sentiu a falta do N°71 à sua frente e todos os seus números melhoraram expressivamente (à exceção da quantidade de fumbles). Rodgers é um quarterback diferente de Favre, tem mais precisão, mais controle de bola e principalmente, passa mais segurança pela absurda aversão a cometer erros.

Estranhamente a quantidade de sacks sofridas caiu significantemente, e Rodgers deixou de ser o 2° quarterback mais sacado em 2015 para a 12° posição no ano seguinte. Esses valores são contraditórios aos de Favre entre 2004 e 2005 e creio que existam 3 motivos principais para isso: 1- Os offensive tackles David Bakhtiari e Brian Bulaga tiveram possivelmente os melhores anos de suas carreiras; 2- Por um grande período de tempo, Rodgers teve de utilizar de passes curtos para compensar a ineficiência do jogo corrido e 3- Rodgers foi constantemente forçado a fazer lançamentos fora do pockett, o que magicamente aumenta seu nível de jogo.

É possível supor que, ao contrário do caso Whale-Rivera, a saída de Sitton não teve nenhum dano significante na performance de Aaron Rodgers e consequentemente no ataque aéreo de Mike McCarthy. Entretanto assim como em 2005, o jogo corrido teve uma queda significativa. E finalmente nós podemos imaginar o quanto a saída de T.J. Lang afetará o ataque para 2017.

No momento, o plantel de jogadores lista os guards Lucas Patrick e Don Barclay (que também deve ser utilizado como center reserva) como os únicos jogadores para a posição. O offensive tackle Kyle Murphy também já foi cogitado para jogar por dentro da linha ofensiva no passado e deve ser considerado novamente. Também podemos esperar algum rookie selecionado no Draft ou via Undrafted Free Agency para competir pela vaga.

A perda de Lang será muito sentida pelo ataque, mas diferente de 2005 não deve gerar resultados catastróficos. Brett Favre e Aaron Rodgers tem estilos de jogo diferentes e a principal diferença está em como cada um enfrenta a pressão do adversário. Enquanto um sofre o outro acha um jeito de elevar seu jogo à um nível extraterrestre.

Se há algo a comemorar nisso tudo, é o fato do contrato de T.J. Lang com os Lions ser bem expressivo, e aliado à saída dos outros jogadores (principalmente a de Micah Hyde) devemos ter pelo menos duas escolhas extras na 4° rodada do draft do ano que vem devido à fórmula de escolhas compensatórias.

Entretanto a maior preocupação, não deve ser em relação ao Rodgers e a pressão extra que ele deve sofrer durante o ano, mas sim à queda de rendimento do jogo corrido nesse ano, que inicia um estado de alerta em Ted Thompson para renovar com Eddie Lacy, Christine Michael ou escolher um bom corredor na boa classe de runningbacks desse Draft para fazer par com Ty Montgomery, e assim manter o jogo corrido competitivo. As contratações dos tight ends Martellus Bennet e Lance Kendrics também devem facilitar a vida de Rodgers, uma vez que podem servir constantemente de válvula de escape de passes curtos para o N°12.

Lang deixa um buraco (literalmente) muito grande na linha ofensiva aberto, e a competência de seus reservas em substituí-lo à altura ainda é incerta. Porem Thompson, McCarthy e Rodgers conseguiram minimizar a saída de um guard de elite ano passado e não há motivo para duvidar que eles consigam repetir a dose evitando um resultado catastrófico.